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08 DE MARÇO – DIA DA MULHER

08 DE MARÇO – DIA DA MULHER

O boletim Isto é Inconfidência, edição Ano X. Nº 22 de 2008 publicado pelo Museu da Inconfidência, homenageou as mulheres a partir de seu Editorial, retratando a situação das mulheres do Século XVIII em áreas mineradoras, que hoje aqui republicamos. O texto de Rui Mourão, revela a segregação pela sociedade entre mulheres ricas, pobres, brancas, negras e índias. Mostra também como viviam e se comportavam essas mulheres conforme sua condição socioeconômica.

Nesse contexto, duas mulheres daquele século se destacaram, recebiam homenagens de seus companheiros em forma de poesias, os então inconfidentes, Inácio José de Alvarenga Peixoto e Tomáz Antonio Gonzaga.  Nos dias atuais, Maria Dorothea Joaquina de Seixas, a Marília de Dirceu, pseudônimo utilizado por Tomáz Antonio Gonzaga em seus poemas e Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, esposa de Alvarenga Peixoto, consideradas musas inspiradoras do arcadismo no período da Inconfidência Mineira.

O Museu da Inconfidência guarda os restos mortais de Marília, juntamente com os de outros 19(dezenove) inconfidentes, além de alguns de seus objetos, e homenageia Bárbara Heliodora com uma lápide simbólica.

 

A mulher no Século XVIII

 

A situação da mulher, desfavorável no Brasil do século XVIII como em todo o mundo, via-se extremamente agravada na região das minas. Tornada atração irresistível, a mineração atraía incontáveis levas de indivíduos procedentes de todas as partes da Colônia e do Reino, que chegavam ávidos, dominados pela ambição do enriquecimento fácil. Homens, na maioria, apareciam já com a abdicação de princípios fundamentais de comportamento, seja porque o ambiente de primitivismo inspirava todo tipo de liberdade, seja porque a sobrevivência naquelas paragens não deixava de ser, e muito, uma questão de audácia e de apropriação.

Na rua, tornada domínio absoluto de aventureiros, mulheres de costumes nada exigentes, na maioria negras e índias, disputavam espaço como podiam, mas a virtuosa dona de casa e suas filhas se mantinham no recato das residências, reclusas por trás de treliças, a despejarem olhares filtrados para fora. Buscando preservar a honra da família, marido, pai filhos e irmãos as mantinham sob rigoroso controle. A ida à igreja aos domingos era permitida e essa precária conquista - ou limitado relaxamento de prisão - elas tratavam de estender até o limite do possível. A oportunidade de assistir à missa pela manhã convertia-se em oportunidade de, acomodadas no piso da nave - ainda não estavam na época em que começara a existir bancos para assento dentro dos templos - só retornavam a casa à noite, quando se encerrava o último ofício da reza. Representantes do sexo masculino transitavam esgueirados pelas portas, em busca de flertes, que aconteciam. Em consequência, os leques entravam em cena, com sua linguagem codificada, para secretas combinações. Espancamentos e mortes ocorreram.

 

No avançar do século XIX, houve progressos sem dúvida. A presença da cadeirinha de arruar ou serpentina, instrumento de transporte urbano conduzido em ombros de escravos, para conforto e elegância de grandes damas, que ao mesmo tempo se escondiam e se mostravam manipulando cortinas, constituía marca de momentos de descontração de uma sociedade que havia conquistado novos foros de civilização. Isso graças a certa acumulação de riqueza, que promovendo um ainda precário alargamento das possibilidades de circulação, educação e informação, de qualquer forma promovia o aprimoramento dos costumes. O comportamento e a maneira de vida da mulher solteira a essa altura encontravam-se sensivelmente modificados. E podemos imaginar o que daí para a frente, nesse sentido, iria representar a chegada de D. João VI, acompanhado de numerosa corte de modernos, exigentes e requintados hábitos europeus. Também as medidas administrativas de largo alcance então tomadas que, rompendo com amarras impostas pelo colonizador, nos colocaram em regime de trocas comerciais e por consequência, de costumes, com um mundo bem mais largo do que o representado pela Metrópole.

 

A mulher no Museu da Inconfidência

 

Uma visita ao Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, a 95 km de Belo Horizonte, pode se tornar um percurso por reminiscências do passado feminino de Minas Gerais e do país. Na exposição e na reserva técnica estão objetos que revelam parte da vida das mulheres num período que vai do século XVIII ao início do século XX, ou seja, na Colônia, no Império e na República.

 

Moda e Privacidade

 

Entre essas peças, acessórios como sombrinhas, pingentes e braceletes remetem à maneira de se vestir e se adornar das mulheres em outros séculos. Um espartilho é testemunho do tempo em que elas sacrificavam o conforto e até a saúde em nome de uma cintura extremamente fina. Num daguerreótipo – técnica de impressão fotográfica que não sobreviveu por muito tempo – vê-se o retrato de uma dama da sociedade de Ouro Preto em meados do século XIX, época em que a cidade era a capital mineira e em que muitos dos acessórios expostos no Museu da Inconfidência deviam estar na última moda.

Já a privacidade da mulher no interior das casas pode ser observada na exposição de camas com dossel ou em baús e arcas feitos para receber o enxoval de casamento. Numa vitrine, recriou-se o ambiente íntimo de um quarto de casal no século XIX.

                      

Transporte

 

Durante o período colonial, e mesmo nos primeiros tempos do Império, era comum ver nos centros urbanizados brasileiros a seguinte cena: uma pequena caixa cortada longitudinalmente por uma haste e carregada por dois escravos, levava dentro, sentada numa cadeira, uma senhora.

Esse meio de transporte ficou conhecido como “cadeirinha de arruar.” A palavra “arruar” significa “ir à rua” e os centros urbanos brasileiros eram o espaço onde circulavam as cadeirinhas.

Apesar de utilizada por ambos os sexos, os relatos e ilustrações de época associam as cadeirinhas ao universo feminino, principalmente ao das mulheres abastadas. Além de meio de transporte, as cadeirinhas eram instrumentos de diferenciação social e até de sedução. Quanto mais ornamentada, mais rica sua dona. Houve ordens no Rio de Janeiro para que as cadeirinhas fossem de uso exclusivo de senhoras nobres, uma vez que mulatas e negras forras ricas também a estavam adotando.

A utilização sedutora da cadeirinha é descrita em cores vivas por uma testemunha ocular daqueles tempos, o artista francês Jean Baptiste Debret: “A cadeirinha, como o balcão, é um palco de faceirice; nela também o primeiro gesto gracioso de uma senhora brasileira consiste em agitar o leque fechado. [...] Algumas senhoras, para sua distração durante o trajeto, fecham as cortinas de um dos lados da cadeirinha, formando com habilidade, à altura dos olhos, uma pequena, mas elegante abertura, no intuito de não serem reconhecidas pelos transeuntes”.

Na exposição do Museu da Inconfidência, há um belo exemplar de cadeirinha. Datada da segunda metade do século XVIII, a peça é cuidadosamente decorada com rocalhas e pinturas representando os deuses clássicos Pã e Netuno. As hastes terminam em carrancas que misturam as feições de cobra e dragão. A última usuária dessa cadeirinha foi, por sinal, uma mulher, numa época em que as cadeirinhas já não estavam na moda. Como era paralítica, a cadeirinha a transportava até a igreja, para a missa de domingo.

Outra peça que diz respeito ao transporte da mulher, no século XIX, é o silhão, próprio para a montaria feminina. O silhão tem abertura que permite à mulher cavalgar de saia, as pernas juntas pendendo na lateral do cavalo.

 

Inconfidência Feminina

 

Criado para homenagear os participantes da Inconfidência Mineira, todos homens, o Museu da Inconfidência dedica espaço à memória de duas mulheres que acabaram sendo relacionadas com o movimento: Maria Dorotéia Joaquina de Seixas Brandão, noiva de Thomaz Antônio Gonzaga que passou à história sob o nome Marília de Dirceu, e Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, esposa de Inácio José de Alvarenga Peixoto.

Antes do Panteão, onde se encontram os restos mortais dos inconfidentes, estão as lápides de ambas. A de Marília possui cruz gravada, indicativa de sepultura. Seus restos foram transladados para o Museu em 20 de abril de 1955. A lápide de Bárbara é apenas simbólica, ela permanece em São João del Rei, onde viveu.

Como os inconfidentes, Marília e Bárbara não deixaram de ser atingidas pela repressão portuguesa. Bárbara possivelmente de maneira mais dura. Poetisa, segundo alguns autores teria morrido louca, consequência de acessos de melancolia devidos à sorte do marido. Outros estudiosos admitem que essa alegada demência de Bárbara não passava de estratégia para a anulação de uma escritura de venda de bens.

Ao lado das lápides são exibidos dois objetos que remetem ao destino de Marília após o malogro da Conjuração. Um é o seu testamento, datado de 1853, ano de sua morte aos 86 anos. O outro é um trabalho de bordado e colagem de autoria de Maria Dorotéia, feito sobre gravura representando Maria Madalena.

 

Na parte inferior da peça, lê-se inscrição em francês cuja tradução é a seguinte: “O fruto de uma perfeita conversão, tal qual a de Madalena, é de chorar eternamente nossos pecados; e como nós utilizamos os membros de nossos corpos a serviço da impureza e da injustiça, para cometer iniquidade, nós os faremos, de agora em diante, servir à justiça, para nossa santificação”.

 

Interessante é que, ao contrário do que escreveram historiadores do início do século XX e do que muitos pensam ainda hoje, há os que afirmam que Marília de Dirceu não teria vivido como uma casta donzela a chorar eternamente a perda de um noivo revolucionário e promissor. Certamente ela nunca se casou, mas se diz que tempos depois da Inconfidência a musa de Gonzaga deu à luz a um menino, criado como filho de sua irmã.

Bárbara Heliodora também fugiu aos moldes de um casamento tradicional, o que, ao invés de exceção era prática comum na Minas do século XVIII. Aos 20 anos foi morar com Alvarenga Peixoto. Quando oficializaram a relação, já tinham uma filha crescida.

                                                                                      

Rafael de Godoy

Assessor de Comunicação