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Modernização

A exposição permanente do Museu da Inconfidência, montada quando da inauguração do órgão em 1944, ficou intocável até recentemente. Em meados de 2005, teve início o projeto de sua modernização, com incentivo do Ministério da Cultura, patrocínios da Caixa Econômica Federal, Petrobras, Acesita, Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, Vitae Apoio à Cultura, Educação e Promoção Social e de ajuda financeira particular do banqueiro Aloysio Faria. O projeto museológico e museográfico, de linguagem avançada, foi de modo a promover a interação do espectador com o acervo, possibilitando nova abordagem da vida social, política e artística das Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX.

A leitura que se pode fazer da nova proposta não envolve grandes complicações. Para lidar com o público de massa, como é o caso, a sabedoria está em procurar ser simples e objetivo. A estrutura geral da mostra, dividida em dois lances bem definidos, coincide com os dois pavimentos do prédio. Na parte inferior está exposta a infraestrutura da evolução econômica, social e política de Vila Rica. Principiando com a Sala das Origens, em que são abordados desde os primórdios da ocupação do território dos índios goitacases, é estudada a evolução da Vila, através da apresentação da tipicidade das construções urbanas, meios de transporte, a atividade mineradora, o movimento político da Inconfidência, equipamentos de rua e de casa produzidos pela sociedade requintada do século XIX, até o surgimento da cidade imperial, já com o país independente. Na parte superior, o que tem lugar é o estudo da superestrutura resultante dessa base social revelada. Um grande painel vai sendo apresentado, mostrando como se impôs e evoluiu a religião católica, a arte sacra produzida em decorrência dela, a talha, a escultura e a pintura erudita e popular, o mobiliário, a música.

A novidade mais importante foi a inclusão da Sala da Mineração no circuito, eliminando um vício de origem que o comprometia com o ideário integralista, por influência do historiador Gustavo Barroso, figura de grande influência cultural no período. A mineração, fundamento maior da conspiração de Vila Rica, não chegou sequer a ser referida na primeira exposição. Sem mostrar a realidade da exploração do ouro, não se podia fazer a contextualização das personalidades envolvidas na Inconfidência. Os heróis trazidos da África foram recolhidos ao Panteão na condição de entidades supra reais, abstratas e idealizadas, de acordo com o receituário fascista.

É preciso chamar a atenção também para outro aspecto fundamental da nova mostra, que procurou ir fundo na análise do movimento político, estudado a partir do entendimento de Vila Rica como a grande indutora das ideias que inspiraram o sonho da independência. Apresentando, através de várias salas, o núcleo urbano em evolução na colônia, surge o grande salão, numa mudança de perspectiva, sugerindo o mundo novo que estava surgindo para nós e poderia ter chegado naquela época, caso a conspiração tivesse alcançado êxito. O espaço percorrido inicialmente é de sombra - da dominação colonial, da contra-reforma, do claro-escuro barroco, do cerceamento das liberdades individuais, do trabalho escravo - e o salto que a partir dali se empreende é para ingresso no ambiente de pura claridade do Iluminismo, com as ideias democráticas dos pensadores da Enciclopédia que fizeram a defesa dos direitos individuais, tornando possível ao homem se converter em formulador do seu próprio destino. O espaço desse último salão foi trabalhado inclusive pela escolha da cor ambiente. O branco trepou pelas paredes, revestiu as janelas, subiu pelas altas estruturas de dois painéis, que formando um corredor, conduz até o Panteão dos Inconfidentes.